SEGUNDA-FEIRA, 29 DE MARÇO DE 2010
"Xaxados e Perdidos", uma benção!


Olha só, pra quem ainda não assistiu, não dá pra deixar de ir:
Xaxados e Perdidos, com a maravilhosa Simone Rasslan,
acompanhada dos músicos Alvaro RosaCosta e Beto Chedid,
um trio e tanto, que faz do espetáculo uma série de momentos
sublimes e emocionantes. O grupo faz uma grande homenagem
à cultura brasileira, através de um trabalho de pesquisa
riquíssimo, como escrevem no programa: “Nessa terra onde
tudo dá, não faltam batuques dos mais refinados, sambas,
chorinhos, cirandas, xotes e xaxados que nascem do ‘barro
do chão’ da alma de um povo cheio de imaginação, crendices
e amores”.
A versão de Cuitelinho na delicadeza da voz da Simone é de
uma sensibilidade indescritível - e inesquecível - que depois
arrasa na sequência com Sodade Matadera, de Dorival Caymmi.
O roteiro do espetáculo reserva surpresas belíssimas e, se
Severina Noite (Lula Queiroga/Pedro Luiz) nos arrebata, é
impossível conter as lágrimas em Água e Vinho (Egberto
Gismonti/Geraldo Carneiro). E depois é só festa, que começa
com o O Canto das Fiandeiras, do folclore de Minas, e agradecer
por esse lindo espetáculo, com direção de cena do Alvaro
RosaCosta, cenário do Álvaro Villa Verde e Luz do Batista Freire.
SEGUE A DICA, COM CARINHO E UM BEIJO GRANDE
PRA ESSA EQUIPE!
Em tempo:
A temporada de Xaxados e Perdidos iniciou ontem no
Teatro do SESC - Alberto Bins, 665 - Porto Alegre
e segue até 28 de março de 2010, sempre aos sábados e
domingos às 20 horas!

Alvaro, Simone e Beto: Xaxados e Perdidos
(Sai um pouco da frente do computador e vai ao teatro, que vale a pena!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!)
![]() | | a_hohlfeldt@terra.com.br Antônio Hohlfeldt |
Notícia da edição impressa de 12/02/2010
A história do Inter, com emoção e inteligência
Nossos times de futebol, e não apenas o Grêmio e o Internacional, diga-se de passagem, são instituições tradicionais do Estado. Por isso, sua apropriação pela arte não deve surpreender, pelo contrário: deveria ser corriqueiro que tais temas inspirassem nossos criadores. Sabemos, contudo, que, mesmo na literatura, o futebol é relativo escasso, embora as poucas obras que possuímos tenham boa qualidade. No caso do teatro, que eu saiba, até aqui, não havia nada. E então, inventaram Vermelhos – História e paixão, que tem a assinatura de Artur José Pinto, na dramaturgia, e do uruguaio Néstor Monasterio, na direção, além de um elenco formado por nove intérpretes, todos de excepcional qualidade, boa parte dos quais extremamente conhecidos de nosso público.
Artur José Pinto é conhecido sobretudo pelos textos de dramaturgia infantil que assina. Aqui, ao contar a história do Inter, no entanto, ele se superou de maneira extraordinária. Há bom gosto e inteligência, sensibilidade e equilíbrio em tudo. Inexiste qualquer movimento de desrespeito a quaisquer outros times ou ufanismo rasteiro. Inteligentemente, Pinto toma a figura do fundador do Inter e narra sua história – particular e institucional – valendo-se de uma inspirada recriação de época, marcada especialmente pela música popular. Neste sentido, a escolha do repertório foi corretíssima e muito feliz, e a presença de Simone Rasslan, como intérprete, garantiu a qualidade musical do trabalho: todo o mundo canta, a maioria do elenco é capaz de tocar algum instrumento musical, e não é raro que o espectador verdadeiramente se emocione com as passagens escolhidas e vivamente apresentadas no palco.
Se esta primeira narrativa desenrola-se linearmente ao longo do tempo, temos uma segunda ação dramática, aquele jogo em que o Internacional, no distante Japão, vai enfrentar a partida de sua vida para tornar-se campeão do mundo. Daí, Artur Pinto escolheu figuras variadas que personificam os diferentes torcedores. E vai compondo algumas imagens de cada um, em especial o contínuo do jornal, ex-engraxate, que já sonhou em jogar no time, mas que agora é torcedor emocionado. Alvaro RosaCosta dá um show de interpretação e é talvez a figura mais emocionante de todo o espetáculo, pela vitalidade que empresta a esse personagem.
Artur Pinto, assim, conduz a dupla ação até a vitória final, presente, e a fundação do time, passado, que se mistura à vida privada do fundador, numa cena hilária em que pedido de casamento e convite para a presidência do clube se fundem.
Figuras queridas de nosso teatro, como José Vitor Castiel, Oscar Simch - irreconhecível como o diretor de A Federação - o impagável Rogério Beretta, o emocionado Gustavo Razzera e William Martins compõem tipos variados, entre figuras históricas e personagens de fundo que constituem a bela história do time futebolístico. No grupo feminino, a estreante Sofia Schul, como a prometida de Hoppe, dá um banho de naturalidade, comportando-se como gente grande; Simone Rasslan é sempre emotiva, e Susi Martinez personifica figuras tão diversas tanto uma “mamma” cuidadosa quanto uma secretária de redação em um jornal porto-alegrense.
A escolha das composições para a trilha sonora; a elaboração do cenário, dividindo o espaço em dois planos, um mais vinculado ao passado e outro ao presente; os cuidadosos figurinos, o que evidencia uma produção caprichada; tudo, enfim, demonstra bom gosto, respeito pelo público e, sobretudo, inteligência na definição do caminho escolhido (não há programa da peça, não tivemos como identificar seus responsáveis). Néstor Monasterio e Artur José Pinto certamente têm aqui um de seus melhores momentos, cada um em sua atividade. Não há nada a observar com restrição. Nem mesmo a duração do espetáculo, de hora e meia, que voa, tal o interesse e o envolvimento provocados na plateia. Claro, formada, essencialmente - ou exclusivamente? - de colorados que, ao final, cantam juntos os hinos do time de seu coração. A exceção era eu - gremista - o que fazer? Fui trabalhar, assistir e avaliar um espetáculo de teatro, mas confesso: também me emocionei e quase saí cantando o “Papai é o maior...”.
Carlos Ramiro Fensterseifer estreou na direção brincando com espelhos. E fez boa figura, como se dizia nos tempos de antanho: DentroFora está indicada com justiça em praticamente todas as categorias do Açorianos 2009, concorrendo a melhor espetáculo, direção, ator, atriz, figurino, cenografia, iluminação e trilha sonora
Algumas reflexões, para começar. Em 2008, Fensterseifer e Heinz Limaverde estrearam o ótimo O Gordo e o Magro Vão para o Céu, texto de Paul Auster dirigido por Nelson Diniz e Liane Venturella. Em DentroFora, o texto segue sendo de Auster mas Liane e Diniz atuam, enquanto Fensterseifer dirige. Mais espelho: O Gordo e o Magropropunha um ritmo aeróbico, tanto em movimento quanto em humor, já DentroFora é uma encenação claustrofóbica, com raros espaços para rir. Em OGordo e o Magro, os personagens se exauriam para erguer um muro – em DentroFora, a luta é por sair de dentro da caixa, do que se espera, da falta de comunicação. Em comum, os dois espetáculos exercitam a sofreguidão do verbo, explicitando a reverência confessa de Auster pelos labirintos de palavra propostos por Samuel Beckett.
No palco, existem duas cabines com porta transparente, criadas por Elcio Rossini. Uma das cabines é ocupada por Marie (Liane), outra por Jimmy (Diniz). Não há contato visual entre a dupla, mas eles conseguem conversar normalmente, o que já sugere o tom geral da peça: levamos todos a nossa vidinha, cada um no seu quadrado, sem atentar para o outro, mas nem por isso o jogo social – por pior que seja – se inviabiliza. Conversamos, convivemos, e a vida toca em frente, deixando que as convenções (e algumas raras contravenções, que ninguém é de ferro) ocupem os espaços dos nossos sonhos.
Os figurinos e a maquiagem de Marie e Jimmy, criados por Rodrigo Nahas, ajudam a enfatizar o estranhamento e o deslocamento da dupla. Liane usa peruca afetada, carrega na maquiagem no esforço de atribuir a sua fisionomia uma emoção que Marie talvez nem saiba se ainda tem. Diniz fica a meio caminho entre o presidiário e o palhaço de vaudeville, preso nas mesmas piadas, nas mesmas intenções, nos mesmos fracassos.
DentroFora acaba sendo, como seria de esperar, um espetáculo de atores. Diniz e Liane brilham, mesmo sujeitos à restrição de espaço e ao tom quase caricato que Marie e Jimmy exigem. O desafio, claro, seria bem esse: por baixo do exagero, da maquiagem pesada, da rotina que entorpece e dos gestos previsíveis que nos ajudam a viver, sob tudo isso garimpar humanidade e afirmar que os personagens que se vive na vida real escondem quem realmente somos.
Um espetáculo à parte é alternar o olhar entre Liane e Diniz quando eles não são o foco da cena. Na verdade, os dois são sempre foco de cena: mesmo quando não estão com a palavra, cada um deles segue construindo seu personagem e complementando, por reforço ou oposição, o que o outro está colocando. Ah: e a música de Álvaro Rosacosta e iluminação de Claudia De Bem acertam no tom também.
DentroFora atrai e conduz com eficiência e prazer o público para essa viagem de espelhos distorcidos, mas talvez Fensterseifer devesse fazer o que Marie e Jimmy tentam durante todo a peça – sair de vez da casinha, ousar. Um dos momentos de maior impacto é quando Jimmy e Marie fazem movimentos espelhados, obviamente não se enxergando. Esse recurso talvez pudesse ser mais usado – a dificuldade na realização certamente chama a atenção do público e pode sugerir que há momentos, sim, em que mesmo dentro de caixas podemos nos sintonizar uns com os outros. A cena final, por incrível que pareça, me pareceu distante do nível geral ótimo do espetáculo. Há, certamente, o problema da previsibilidade: qualquer um sabe que, de alguma forma, ou Jimmy ou Marie vão acabar saindo da cela. No caso, é Marie. Ela avança um pouco, mostra-se previsivelmente com medo da liberdade e… previsivelmente retorna à zona de (des)conforto de sua casinha. Dramaturgicamente, nenhuma novidade, mas talvez Fensterseifer pudesse “complicar”. A título de sugestão: e se Marie avançasse sobre o público. Nesse caso, a intenção não seria a de provocar a plateia, mas de fazer os espectadores verem ainda mais de perto a maquiagem caricata, dar um close no olhar de criança desamparada que Liane sustenta, derrubar a quarta parede no mutirão para derrubar a parede do isolamento. Seria como se o público se olhasse num espelho e se defrontasse com uma maquiagem borrada e olhos vazios.
O bom mesmo seria algo que Fensterseifer planeja: fazer algo como uma sessão dupla, juntando O Gordo e o Magro Vão para o Céu e DentroForana mesma noite, na mesma sala, para o mesmo público. Do diálogo entre os diferentes, sairia uma conclusão maior. O que acaba sendo a mensagem maior de DentroFora e a lição maior de qualquer vida.
![]() | | a_hohlfeldt@terra.com.br Antônio Hohlfeldt |
Notícia da edição impressa de 12/02/2010
A história do Inter, com emoção e inteligência
Nossos times de futebol, e não apenas o Grêmio e o Internacional, diga-se de passagem, são instituições tradicionais do Estado. Por isso, sua apropriação pela arte não deve surpreender, pelo contrário: deveria ser corriqueiro que tais temas inspirassem nossos criadores. Sabemos, contudo, que, mesmo na literatura, o futebol é relativo escasso, embora as poucas obras que possuímos tenham boa qualidade. No caso do teatro, que eu saiba, até aqui, não havia nada. E então, inventaram Vermelhos – História e paixão, que tem a assinatura de Artur José Pinto, na dramaturgia, e do uruguaio Néstor Monasterio, na direção, além de um elenco formado por nove intérpretes, todos de excepcional qualidade, boa parte dos quais extremamente conhecidos de nosso público.
Artur José Pinto é conhecido sobretudo pelos textos de dramaturgia infantil que assina. Aqui, ao contar a história do Inter, no entanto, ele se superou de maneira extraordinária. Há bom gosto e inteligência, sensibilidade e equilíbrio em tudo. Inexiste qualquer movimento de desrespeito a quaisquer outros times ou ufanismo rasteiro. Inteligentemente, Pinto toma a figura do fundador do Inter e narra sua história – particular e institucional – valendo-se de uma inspirada recriação de época, marcada especialmente pela música popular. Neste sentido, a escolha do repertório foi corretíssima e muito feliz, e a presença de Simone Rasslan, como intérprete, garantiu a qualidade musical do trabalho: todo o mundo canta, a maioria do elenco é capaz de tocar algum instrumento musical, e não é raro que o espectador verdadeiramente se emocione com as passagens escolhidas e vivamente apresentadas no palco.
Se esta primeira narrativa desenrola-se linearmente ao longo do tempo, temos uma segunda ação dramática, aquele jogo em que o Internacional, no distante Japão, vai enfrentar a partida de sua vida para tornar-se campeão do mundo. Daí, Artur Pinto escolheu figuras variadas que personificam os diferentes torcedores. E vai compondo algumas imagens de cada um, em especial o contínuo do jornal, ex-engraxate, que já sonhou em jogar no time, mas que agora é torcedor emocionado. Alvaro RosaCosta dá um show de interpretação e é talvez a figura mais emocionante de todo o espetáculo, pela vitalidade que empresta a esse personagem.
Artur Pinto, assim, conduz a dupla ação até a vitória final, presente, e a fundação do time, passado, que se mistura à vida privada do fundador, numa cena hilária em que pedido de casamento e convite para a presidência do clube se fundem.
Figuras queridas de nosso teatro, como José Vitor Castiel, Oscar Simch - irreconhecível como o diretor de A Federação - o impagável Rogério Beretta, o emocionado Gustavo Razzera e William Martins compõem tipos variados, entre figuras históricas e personagens de fundo que constituem a bela história do time futebolístico. No grupo feminino, a estreante Sofia Schul, como a prometida de Hoppe, dá um banho de naturalidade, comportando-se como gente grande; Simone Rasslan é sempre emotiva, e Susi Martinez personifica figuras tão diversas tanto uma “mamma” cuidadosa quanto uma secretária de redação em um jornal porto-alegrense.
A escolha das composições para a trilha sonora; a elaboração do cenário, dividindo o espaço em dois planos, um mais vinculado ao passado e outro ao presente; os cuidadosos figurinos, o que evidencia uma produção caprichada; tudo, enfim, demonstra bom gosto, respeito pelo público e, sobretudo, inteligência na definição do caminho escolhido (não há programa da peça, não tivemos como identificar seus responsáveis). Néstor Monasterio e Artur José Pinto certamente têm aqui um de seus melhores momentos, cada um em sua atividade. Não há nada a observar com restrição. Nem mesmo a duração do espetáculo, de hora e meia, que voa, tal o interesse e o envolvimento provocados na plateia. Claro, formada, essencialmente - ou exclusivamente? - de colorados que, ao final, cantam juntos os hinos do time de seu coração. A exceção era eu - gremista - o que fazer? Fui trabalhar, assistir e avaliar um espetáculo de teatro, mas confesso: também me emocionei e quase saí cantando o “Papai é o maior...”.